O bonde
 
 

Me lembro do dia que me mudei para aquele bairro lá no alto da cidade,
suas ruas de pedras e imponentes casarios, diferentes de tudo o que eu conhecia.
As casas cercadas por largos muros guardando quintais com antigas árvores
de caules cobertos de limo, e quantas árvores frutíferas! Goiabas, pitangas, acerolas, cajamangas, tamarindos, mangas rosa, espada e tantas outras, até hoje me deixam
com água na boca e tentado a pular os muros para roubar algumas suculentas
que pendem dos galhos, pensamento dissipado pelos latidos de ferozes cães
que habitam esses quintais. Dependendo da hora, vê-se muitas pessoas nas ruas,
crianças brincando na volta da escola, casais de namorados ou pessoas transportando pesadas bolsas com compras de mercado, para logo após, tudo novamente ficar deserto,
como se todos tivessem combinado a hora da saída e chegada em suas casas.
Estas, sempre com portas fechadas, guardam um silencio quebrado pelos latidos dos cães,
o canto dos pássaros e algo inusitado que desliza veloz pelas ruas do bairro,
emitindo um barulho metálico, que fere o ouvido e faz tremer toda a carne do corpo
sobre ossos prestes a trincarem. Passa riscando ruas, balançando casas e tudo o que estiver
nas proximidades. Circula pelo bairro engolindo e despejando pessoas durante seu trajeto.
As pessoas devolvidas por ele, por incrível que possa parecer, passam a cultivar dentro de si um sentimento de liberdade, se tornam mais felizes, casam, tem filhos, envelhecem,
se tornam avôs e avós e continuam morando até o fim de suas vidas no bairro.
Quando através do barulho que ele faz , eu percebo sua aproximação,
corro para vê-lo passando rápido com seus vários olhos exibindo rostos que expressam felicidade e orgulho de estarem dentro dele, “o guardião do bairro”.
Certo dia, demorei mais do que o de costume num pequeno bar onde ficava conversando com antigos moradores, saindo de lá em meio ao escuro da noite, ruas totalmente desertas,
varridas por um vento frio que me congelava a ponta do nariz e as orelhas.
De repente ouço um barulho ao longe que me era familiar, mas sob o efeito de alguns
goles a mais, continuei andando sem pensar no que poderia ser e quando dei por mim,
era ele se aproximando. Passou a me perseguir implacavelmente, numa velocidade alucinante,
o ruído que eu ouvia era ensurdecedor, já sentia o vapor do seu hálito
queimando minhas pernas, não havia mais nenhuma chance de escapar,
um misto de medo e curiosidade me dominou, e como que por piedade,
ele me engoliu de uma só vez. Naquele momento, percebi apenas os postes passando rapidamente nas laterais da rua, testemunhas mudas, que tremem quando ele passa soberano, centenário, se alimentando do ego do povo daquele bairro.



 
     
Silas Rodrigues © Todos os direitos reservados